Síndromes Mielodisplásicos

SÍNDROMES MIELODISPLÁSICOS

A medula óssea é o órgão responsável pela produção das células que circulam no sangue. Os Síndromes Mielodisplásicos (SMD)caracterizam-se por uma falência medular, isto é, por uma quebra na função da medula óssea e, consecutivamente, por alterações qualitativas e quantitativas das células sanguíneas. Nesta patologia, a medula óssea é hipercelular, rica em células progenitoras que por apresentarem defeitos na sua função, acabam por ser destruídas antecipadamente e não chegam a ser lançadas no sangue periférico. Deste modo surgem citopenias, isto é, valores circulantes de células sanguíneas muito reduzidos (eritrócitos, leucócitos e/ou plaquetas).
Na maioria dos casos trata-se de um distúrbio do sangue primário; contudo, alguns doentes apresentam um SMD secundário a quimioterapia ou radioterapia prévios, realizados no contexto de outra neoplasia.Há evidência de que algumas infecções víricas ou a exposição a químicos como tintas, diluentes, insecticidas ou fungicidas possam estar implicados na origem do SMD. Embora a etiologia não esteja completamente esclarecida, presume-se que ocorram danos genéticos nas células precursoras que impedem o seu funcionamento adequado. Estas células dizem-se displásicas.
O risco de desenvolver um SMD aumenta com a idade, tendo a maioria dos doentes mais de 70 anos. Em média, por ano, surgem 4 novos casos de SMD por cada 100 000 habitantes, com um discreto predomínio pelo sexo masculino.

Há vários tipos de SMD cada um dos quais com características específicas com respeito à contagem de células e à sua morfologia, mas também à caracterização da medula óssea e às alterações genéticas apresentadas. Estas características também permitem estratificar o risco e o prognóstico associado à doença.

SINTOMAS

Os sintomas apresentados relacionam-se maioritariamente com as citopenias apresentadas: cansaço ou outros sintomas de anemia, infecções recorrentes (que resultam de níveis baixos de leucócitos) ou sangramento fácil quando há trombocitopenia (plaquetas em número reduzido).

DIAGNÓSTICO

O hemograma frequentemente apresenta pancitopenia, isto é, valores baixos dos três principais grupos celulares – eritrócitos, leucócitos e plaquetas. O diagnóstico depende sobretudo da observação morfológica das células do sangue e da medula óssea, sendo que muitas vezes se trata de um diagnóstico de exclusão pois várias situações podem cursar com displasia, tais como o consumo excessivo de álcool, défice de vitamina B12, entre outras.
O estudo genético é igualmente importante na abordagem diagnóstica, sendo as alterações mais frequentes a delecção (perda) do cromossoma 7 ou 5 e a trissomia do cromossoma 8.
TRATAMENTO

O tratamento para os SMD tem tido avanços significativos nos últimos anos. Habitualmente os doentes são estratificados em baixo ou alto risco e a opção terapêutica segue essa orientação.
Os doentes de baixo risco e com bom prognóstico devem fazer apenas tratamento de suporte, isto é, melhorar os sintomas decorrentes das citopenias. Assim, pretende-se melhorar a função da medula óssea oferecendo aos doentes tratamento com eritropeitina e/ou factores de crescimento que tentam aumentar a resposta medular com produção de novas células.
Atransfusão de eritrócitos ou plaquetas e o uso de antibióticos para combater intercorrências infecciosas é frequente. A longo prazo as transfusões acarretam sobrecarga de ferro no organismo, podendo ser necessário o uso de quelantes de ferro.

Os doentes de elevado risco podem beneficiar de tratamentos mais específicos na tentativa de melhor o prognóstico. A azacitidina é o tratamento mais eficaz na melhoria da qualidade de vida dos doentes, sendo associada a um aumento da sobrevivência.Em casos específicos pode ser proposto o tratamento com quimioterapia intensiva.

O tratamento com lenalidomida é uma opção muito eficaz nos doentes com SMD associada a uma deleção do cromossoma 5. Este subtipo de SMD é mais frequente nas mulheres e está associada a um bom prognóstico.

O alotransplante de medula óssea é o único tratamento com intenção curativa pelo que deve ser considerado em doentes com dador compatível e sem comorbilidades importantes, o que frequentemente é difícil dada a idade avançada da maioria dos doentes. Estudos demonstram que o transplante se associa a melhor qualidade de vida e sobrevivência em doentes de alto risco, sendo por isso opção adiar o transplante para as fases mais avançadas nos doentes de baixo risco.

EVOLUÇÃO

A maioria dos doentes com SMD tem uma evolução indolente; contudo existe um risco aumentado de desenvolverem Leucemia Mielóide Aguda, uma doença maligna do sangue e potencialmente fatal.
A sobrevida destes doentes é muito variável, dependendo do subtipo de SMD, alteração genética apresentada e grupo de risco.

por Sofia Ramalheira – Médica Interna de Hematologia IPO – Porto